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Rio de Janeiro, RJ, Brazil

quarta-feira, 23 de maio de 2012

SOLIDÃO



           A solidão é relativa. Posso estar sem ninguém ao meu lado, isolada em uma caverna e me sentir preenchida por dentro. E também posso estar nessa mesma caverna e me sentir abandonada por todos. É uma simples questão de ponto de vista. O mesmo acontece na multidão. Estar em meio a uma delas não me faz necessariamente sentir que estou acompanhada: sinto-me, por vezes, terrivelmente só no meio da balbúrdia.
        O mundo está cada vez mais lotado de gente, diminuindo a nossa chance de ficar fisicamente sozinhos. E os numerosos aparelhos eletrônicos que temos tampouco nos deixam em paz, imiscuindo-se em nosso espaço mental nos poucos momentos em que conseguimos nos isolar. A hiperconectividade é paradoxal, uma vez que suga a energia interior como um vampiro, deixando-nos, por outro lado, ainda mais desconectados de nosso espírito.
         A solidão, pois, deve ter algo a ver com o sentir-se ou não oca por dentro. Tem pertinência com um buraco que se abre dentro da alma e suga tudo o que com ele entra em contato. Por mais que se tente alimentá-la, suprindo a solidão, esse buraco não deixa que nos sintamos preenchidos. Talvez ele só se feche se nos aceitarmos e acolhermos a vida imperfeita como ela é. 
         Essa é a verdadeira solidão: não é o estar só propriamente dito, mas, sim, vazio de amor por si próprio e de aceitação da inconstância do fluxo vital.


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quinta-feira, 17 de maio de 2012

ZUMBIS MODERNOS



         A impressão de que o tempo foi acelerado é tal que vemos a vida passar como a paisagem na janela de um carro veloz. Assumimos automaticamente o modo zumbi de ser.
          Uma máscara inexpressiva no rosto, às vezes substituída por outra raivosa e tensa. Um andar de um lado para o outro sem poder escolher o rumo que quer, apenas seguindo a rotina que é imposta pelo cotidiano da sobrevivência. Não é possível sequer dar-se ao luxo de parar para respirar profundamente: zumbis estão mortos, respirar não é uma prioridade.
       Zumbis seguem andando a esmo, prontos para estender os braços e agarrar o que passar pela frente com suas mãos crispadas. O olhar é vazio e a vontade de matar está à flor da pele. Esta, aliás, é um capítulo à parte, num acinzentado que denuncia que nunca se expõe ao sol e de quem o sangue foi sugado até a última gota. O coração parou de pulsar há muito tempo e, por isso, não há sentimentos próprios, apenas aqueles que lhes são impingidos ou que são reativos a certas situações. Quem dita o seu comportamento é o grupo e o instinto bestial os guia para o próximo alvo, e depois para o próximo, o próximo, e o próximo, numa infinitude de metas que, se cumpridas, apenas aprofundarão o seu estado de decomposição.
        Reparem nas pessoas nas ruas, nos ônibus e carros, suas expressões faciais, seu modo de agir. Perceberão que todos assumiram o seu lado zumbi, vivendo uma existência vazia e sem nexo, recheada de agressões e ações vãs. Não seguem seu coração, fazem tudo o que o grupo valoriza e perseguem objetivos sem conta, custe o que custar. A morte em vida despercebida. Observem se o entorpecimento de seu próprio espírito já começou. Quem sabe ainda dá tempo de escapar da praga zumbi que assola a nossa humanidade.


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